De costas para o coronavírus: o difícil trabalho das profissionais do sexo

Alessandra Nilo*

Diante de todos os impactos socioeconômicos negativos do novo coronavírus, se faz urgente continuar falando sobre o aumento das desigualdades de gênero. Passado um ano desde o início da pandemia da Covid-19, as mulheres seguem sendo mais afetadas do que os homens nesta crise sanitária sem precedentes. Elas estão na linha de frente – representam cerca de 70% das equipes de trabalho em saúde – e não raro enfrentam dupla jornada como prestadoras de cuidados, incluindo o trabalho doméstico e de cuidado com crianças e pessoas idosas.

O Relatório Especial Covid-19, publicado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) em fevereiro deste ano, mostra o impacto da pandemia sobre a vida das mulheres da região, seja pela sobrecarga de trabalho não remunerado, pela violência doméstica e/ou pela precarização do trabalho, com perda de empregos e renda. Se nada for feito pelos governos, teremos 23 milhões a mais de mulheres vivendo em situação de pobreza do que tínhamos em 2019 e este é o caso do Brasil, onde o governo federal se mostra avesso a realmente cuidar das pessoas, se opõem às medidas científicas e dificulta ainda mais a saída das inúmeras crises que o país enfrenta.

No nosso país, tão desigual, o aumento da pobreza entre as mulheres aprofunda a emergência sanitária e tem deixado Brasil cada vez mais distantes de alcançar o Objetivo 5 da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, que prevê a igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas.

Luza Silva, 49, foi uma das trabalhadoras sexuais entrevistadas na reportagem de Universa Imagem: Arquivo pessoal

E, se para as mulheres em geral a situação já está insustentável, para as trabalhadoras do sexo a situação é dramática, como mostra a reportagem de Universa, em que prostitutas criam regras para trabalhar na pandemia, tornando urgente garantir o respeito, a proteção e o cumprimento dos direitos humanos das profissionais do sexo, historicamente marginalizadas e sem proteção social.

Uma declaração conjunta emitida pela Rede Global de Projetos de Trabalho Sexual (NSWP) e o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS) afirma que, em consequência da pandemia, essas mulheres “estão passando por dificuldades,  uma perda total de renda e maior discriminação e assédio” e é isso que vem sendo denunciado incansavelmente pela Redtrasex, em toda a América Latina. Uma das maiores lideranças da região latino americana, Elena Eva Reynaga, tem sido categórica, em todas as reuniões com os governos em mostrar que as mulheres trabalhadoras do sexo encontram-se numa enorme desigualdade no acesso aos direitos, situação acirrada pela Covid-19. Ela também destaca que não haverá, porém, resposta à pandemia sem avançarmos na desconstrução dos estigmas e na eliminação de todas as formas de discriminação contra todas as pessoas.

Uma resposta adequada à Covid-19 precisa considerar todas essas especificidades. Organizações como a Articulação Nacional de Profissionais do Sexo (Antrasex), Central Única de Trabalhadoras do Sexo (CUTs) e Rede Brasileira de Prostitutas (RBP) documentaram problemas como o fechamento de locais de trabalho, queda no número de clientes nos espaços de sociabilidade, condições laborais que não garantem a completa segurança contra o coronavírus e o aumento da violência de gênero, inclusive de assassinatos.

Como já mostrado na matéria da UOL, em um momento como esse, ações efetivas de apoio como a do Fundo Posithivo podem fazer a diferença entre a vida e a morte para essas mulheres que, além de lidarem com a Covid vivem num país que não lhe garante direitos e enfrentam a redução da clientela e da renda. Aquelas que, sem alternativa, continuam se arriscando nas ruas, precisam adotar protocolos de segurança para o trabalho, como o uso de máscara, os clientes não podem beijá-las e elas ficam de costas durante a relação sexual.  “Sexo de costas é melhor do que nada”, argumentam. Não poderia ser diferente, afinal, a fome não espera. E, diante de tantas as violações de direitos que torna inevitável uma pergunta: como podem os governos e a sociedade falarem em alcançar a igualdade de gênero até 2030 se as profissionais do sexo estão sendo deixadas para trás?

* Cofundadora e coordenadora geral da Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero e cofacilitadora do GT Agenda 2030. É jornalista com especialização em Saúde e pós-graduação em Diplomacia e Negócios Internacionais.

Leia aqui a publicação original.

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