No Amapá, curso ensina e debate relações raciais do Brasil

No momento em que o movimento Vida Negras Importam se espalha pelo mundo, mulheres de comunidades quilombolas, lideranças de movimentos sociais e profissionais da educação do estado se reúnem para debater e aprender questões como identidade, cultura e educação negras, tendo como pano de fundo a região amazônica

Apesar do distanciamento social, ainda necessário como forma de prevenção e controle à contaminação do novo coronavírus e das dificuldades de acesso à tecnologia, um grupo de 23 pessoas – em sua maioria mulheres – de quilombos, representantes de movimentos sociais e servidores de secretarias municipais de educação do Amapá têm participado de um curso sobre identidades negras, educação e gênero. “Há participantes de comunidades onde o acesso à rede é feito somente à noite, quando é ligado o motor a diesel que fornece energia ao local”, conta Ruth Correa, analista socioambiental do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e uma das responsáveis pela ação.

O curso está dividido em unidades que debaterão, entre outros temas, relações raciais no Brasil a partir da realidade da Amazônia amapaense e o contexto atual das desigualdades raciais. A capacitação acontece num momento importante, em que populações negras e não negras de várias partes do mundo se voltaram para a discussão e à luta pelo fim do racismo e a valorização da vida dos negros, com o movimento “Vidas negras importam” que ganhou as ruas de centenas de cidades da América do Norte e Europa e, também, aqui no país, após a morte de George Floyd, o homem negro morto depois de um policial branco de Minneapolis (EUA) se ajoelhar em seu pescoço por mais de oito minutos.

O conteúdo dessa capacitação vem sendo trocado por meio de um aplicativo de mensagens instantâneas para celular. “A equipe teve que sintetizar conteúdos e adequá-los para diferentes tipos de aparelhos. Estamos aprendendo juntos a lidar com a tecnologia”, pontua Ruth. A formação é desenvolvida pelo IEB por meio do projeto Mulheres Negras e Quilombolas pelo Direito à Educação, que tem o financiamento da União Europeia (UE) e o apoio do Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030, que é uma coalizão que reúne 51 entidades de diferentes setores e que monitora, acompanha, difunde e mobiliza pessoas e instituições para a implantação da agenda de desenvolvimento sustentável, aqui no Brasil. Agenda essa ratificada por 193 países – incluindo o Brasil – e definida em 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que devem ser alcançados até o ano de 2030.

Projeto – O projeto Mulheres Negras e Quilombolas pelo Direito à Educação busca enfrentar a realidade adversa que as mulheres negras e quilombolas têm quanto à garantia do acesso à educação socialmente diferenciada e com qualidade técnica. A área de abrangência do projeto são os municípios de Itaubal, Mazagão, Laranjal do Jari e Vitória do Jari, localizados no estado do Amapá e quatro comunidades quilombolas ali existentes.

Essa é uma região do estado que apresenta indicadores preocupantes. Conforme os dados do Censo 2010, esses quatro municípios juntos respondem por um total de 55.704 pessoas com 10 anos ou mais, sendo que desse universo, 33.721 indivíduos não têm instrução ou possuem somente o ensino fundamental incompleto. E entre esses, 72,43% são declarados pardos e 9,53% se declaram negros. O cenário torna-se ainda pior entre as mulheres negras e quilombolas.

“Estamos dando suporte para o esclarecimento de dúvidas e o desenvolvimento de atividades. Queremos que esse momento seja o mais interativo possível, pois em que pese a distância física, o IEB acredita que o conhecimento se constrói a partir da relação entre as pessoas, e destas com suas realidades”, explica Daltro Paiva, analista socioambiental do IEB.

Foto: Quilombo Taperera (AP)/Rosany Videira

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