Nacionalizar a Amazônia e ‘amazonizar’ o mundo é o caminho para o futuro

Artigo de Caetano Scannavino, coordenador da ONG Projeto Saúde & Alegria, publicado no site Carta Capital em 1º de outubro de 2019

Que esse despertar da nossa sociedade continue no exercício de pautar ao invés de se deixar pautar, de integrar ao invés de excluir

Lema do Grupo de Trabalho Amazônico, rede de organizações e movimentos criada no marco da RIO-92, “nacionalizar a Amazônia e amazonizar o Mundo” sempre foi um desafio.

Nacionalizar no bom sentido, do resto do Brasil despertar para o bioma, compreender melhor suas realidades, desafios, culturas, potencialidades e oportunidades, sobretudo nosso centro formador de opinião, o eixo RJ-SP. Só que precisou cair uma chuva de cinzas por lá para Amazônia trancar a pauta nacional, formando a tal tempestade perfeita ajudada por um governo que enxerga até as árvores como inimigos.

Nunca antes nesse país se falou tanto de meio ambiente, de clima, das queimadas e das ONGs – sobre estas, vale dizer que jamais um presidente valorizou tanto o Terceiro Setor ao atirar de forma obcecada nelas, o que acabou se voltando contra ele, o efeito “bumerOng”.

Com a Amazônia em evidência, abre-se uma janela rara para ir além do mais do mesmo, para trazer ao debate socioambiental não apenas o que se perde como o que se deixa de ganhar. Até para sustentar essa mobilização no tempo, faz bem para alma refletir também sobre o que somos a favor, até porque por inércia acabamos mais no que somos contra.

Quem sabe assim nossa sociedade deixe de enxergar a Amazônia como um ônus onde só existem conflitos e desmates e perceba o bônus que tem nas mãos – uma região com quase 25 milhões de cidadãos brasileiros de expressiva diversidade sociocultural, de importância estratégica crescente em tempos de aquecimento global, do futuro com economias de baixo carbono, acordos internacionais em torno da distribuição dos benefícios da biodiversidade e serviços ecossistêmicos.

Como o maior detentor dos ativos naturais do planeta, ocupando mais de 60% do Bioma Amazônico, a responsabilidade que cabe chamarmos é ao mesmo tempo um prêmio que, se manejado de forma sustentada e includente, poderá garantir o nosso pé de meia e justificar que o Brasil, aquele “país do futuro” que ouvíamos na infância, chegou.

Taoquei?

Nem tanto. Isso se continuarmos na vanguarda do atraso alimentando um embate raso e polarizado em torno de desenvolvimento x meio ambiente. Esse debate está errado. Ninguém é contra as facilidades da energia, dos transportes, da internet e outras tecnologias. Nem a favor do fim das florestas, mesmo quem planta (exceto aquele lado ogro do agro) – sem elas não tem água, sem água não tem agricultura.

Portanto, o debate necessário é sobre qual modelo de desenvolvimento que queremos, se para muitos ou para poucos, se para região ou só para fora, se só para agora ou para sempre, se para frente ou para trás.

Ao invés de brigar com os satélites ou minimizar os dados crescentes de desmatamento da Amazônia, o que precisa trazer para mesa é o fato de termos devastado uma área equivalente a duas Alemanhas de florestas, para que 63% dela fosse ocupada por pastagens de baixíssima produtividade, com menos de um animal por hectare, e outros 23% fossem abandonados (Fonte: Embrapa e Inpe). Desmata-se para ficarmos ainda mais pobres, monetária e não-monetariamente. Não pode ser por aí.

Pouco se fala em politicas e incentivos nessas áreas agrícolas já consolidadas do bioma para se transitar do atual sistema para práticas mais modernas, eficientes e amigáveis ao meio ambiente, onde se produz mais com menos terra, menos desmatamento, menos pressão sobre as Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Se é para crescer, que seja para cima, até porque para o lado é caso de polícia no combate ao lucro fácil de especuladores e grileiros de terras.

Iniciativas de manejo racional que inclusive trouxeram maior lucratividade como as dos pecuaristas de Paragominas/PA ou dos sojicultores do Grupo de Agricultura Sustentável (GAS) deveriam ser regra, não exceção. Rumar nesse sentido já seria um passo para ordenar a agricultura de grande escala na região, como estratégia de redução de danos, pois já vimos que insistir focado em mais boi e soja como vetores de desenvolvimento para Amazônia é insano e insustentável.

Por outro lado, há caminhos no país líder em biodiversidade. Por exemplo, está mais do que na hora de alavancar a agenda da bioeconomia. Esta sim é uma atividade com vocação regional ao movimentar o manejo, a coleta e o processamento de produtos da floresta como o açaí, cacau, cupuaçu, castanha, andiroba, ucuuba e tantos outros, muitos ainda desconhecidos numa Amazônia onde a ciência vem descobrindo uma nova espécie a cada dois dias (Fonte: MCTIC/Mamirauá/WWF).

Os frutos e amêndoas são beneficiados na forma de manteigas, polpas, óleos, essências, extratos, com alta demanda de mercado junto às indústrias de fármacos, alimentos e cosméticos. Além de grandes e médios, abrem-se espaços para os pequenos, incluem-se as associações e cooperativas comunitárias, os conhecimentos tradicionais são valorizados, e a floresta é conservada ao se demonstrar que ela em pé tem mais valor do que caída.

Há um potencial bioeconômico gigantesco ainda a ser explorado, com o desenvolvimento de tecnologias de ponta na ponta e investimentos para maior agregação de valor a estes produtos. Como bem lembra o cientista Carlos Nobre: “O grande potencial do Brasil é o potencial da biodiversidade, aí nos precisamos de uma indústria da biodiversidade, e de uma ciência e tecnologia que desenvolva esse potencial”. No vídeo, ele compara as experiências no Pará de produção do açaí (6.711 dólares por hectare) com a da soja (819 dólares por hectare).

Soluções existem, muitas construídas a partir de iniciativas da academia, de povos indígenas, agroextrativistas, empreendedores locais e projetos demonstrativos do Terceiro Setor. O que não dá mais é perder tempo com paranoias sobre soberania e nacionalismo, fake news generalizadas sobre ONGs que botam fogo na floresta, roubam ouro na calada da noite ou estão por trás de interesses internacionais – há gente do bem e do mal em qualquer setor, investigações são bem-vindas, portanto, no caso de haver ilícitos, que deem nomes aos bois e tomem as providências necessárias, separando o joio do trigo.

Se a pauta é soberania, que parem de culpar terceiros para não terem que explicar, por exemplo, os projetos que estão sendo encaminhados para liberar a aquisição de terras na Amazônia por estrangeiros. Ou quais são os termos, facilidades e contrapartidas propostas pelos nossos governantes quando anunciam o desejo de atrair a qualquer custo novas mineradoras transnacionais para o Bioma.

Há de se perguntar ainda porque até agora os tomadores de decisão do pátria amada Brasil não ratificaram o Protocolo de Nagoya – em vigor desde 2014, que regulamenta o acesso aos recursos genéticos, aos conhecimentos tradicionais associados, a repartição justa e equitativa dos benefícios. É um marco histórico para as nações detentoras no reconhecimento dos direitos de soberania sobre sua biodiversidade.

Quanto ao Acordo de Paris, não basta só falar que estamos nele sem apontar caminhos de como será cumprido. Nos comprometemos a reduzir as taxas anuais de desmatamento na Amazônia para algo em torno de 3.800 km² até 2020, quando tudo indica que superaremos a casa dos 10 mil km².

Não seria justo botar toda culpa no governo atual, até porque os anteriores deixaram a desejar. O fato é que até agora o Brasil não tem um projeto efetivo para a Amazônia, em pé, acima do Fla x Flu, pactuado por toda sociedade. Seria pedir muito diante do que já estava ruim agravado por todo esse desmonte ambiental que temos visto nos últimos meses.

Mas há luz.

Toda essa mobilização nacional está mostrando ao governo central (e eventuais sucessores) que não se quer ver mais desmates nem sangue indígena sendo derramado. Outras esferas de governos e instâncias do Estado também, assim como quem compra da gente lá fora e outros países que integram o Bioma.

Que esse despertar da nossa sociedade continue no exercício de pautar ao invés de se deixar pautar, de integrar ao invés de excluir, a começar pelas nações irmãs que compartilham esse território conosco, que o patriotismo em voga se calque no orgulho de ver brasileiros no mundo como Raoni e Davi Yanomami ditando os rumos dos debates civilizatórios com as próximas gerações, que percamos o medo de participar da liderança de novos paradigmas, do futuro, a partir também da nossa Amazônia de todos.

Nacionalizar a Amazônia e amazonizar o Mundo, bóra mais.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Leia aqui a publicação original deste artigo.

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