Cem dias Sem soluções

Artigo de Alessandra Nilo, coordenadora geral da Gestos, publicado no portal Congresso em Foco no dia 10 de abril de 2019

E finalmente chega o “momento oficial” de cobrar respostas do atual governo frente ao cenário desolador que se instalou no país: o que assistimos em 2019 é a completa naturalização da falta de decoro nas três esferas de poder, com excesso de casos de apropriação, de benesses – inclusive financeiras – legais, mas imorais, e privilégios que precisam ser discutidos, um a um. Mas nestes 100 dias nenhum passo nesta direção foi dado pela gestão de Jair Bolsonaro porque, afinal, uma das lições aprendidas neste curto espaço de tempo é que, pior do que não ter competência técnica ou política, é o fato de que não encontramos neste 38º presidente do Brasil nenhum compromisso em resolver nossos problemas: a falta de saúde, de educação, de trabalho decente, de justiça social e, no geral, a captura dos bens públicos pelos interesses privados.

Ao mesmo tempo em que faltam soluções, observamos um avanço excessivo no número de integrantes das Forças Armadas com cargos no Executivo. De 22 ministérios, oito (quase 40%) são militares que, no primeiro, segundo e terceiro escalões, já passam de cem, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, espalhados por ministérios, bancos federais, autarquias, institutos e estatais. Algo inédito no Brasil em um governo eleito democraticamente.

Aliás, uma desconfiança cada vez maior paira sobre as instituições da República, tornando ainda mais grave o fato de que Jair Bolsonaro, além de não avançar para resolver nenhum dos gravíssimos problemas que recebeu junto com a faixa presidencial, a eles acrescentou novos. O filme de terror no qual se transformou a novelesca política brasileira chega, assim, ao seu ápice neste 100º dia de um governo que acumula listas de erros toscos, gafes internacionais e que se esmera em esvaziar políticas públicas que deveriam estar sendo agora melhoradas, não destruídas.

É perigoso o que se observa: com o desemprego batendo recorde, com 43,5 milhões de pessoas vivendo na pobreza, com mulheres – principalmente as negras, indígenas e quilombolas – sob sofrimento desumano, a “resposta” foi fechar o conselho que tratava de segurança alimentar, aprovar mais agrotóxicos e acirrar a briga contra os povos indígenas, facilitando a posse de armas e cortando políticas sociais.  Não se pode manter a confiança em um governo que responde aos desafios nacionais com censura ao livre-pensar, à imprensa e  com um maior contingenciamento de orçamentos estratégicos: 42% em Ciência e Tecnologia, Inovações e Comunicações; 23% no Meio Ambiente e 24,7% das despesas discricionárias da Educação, por exemplo. É também impossível alinhar democratas e adoradores de ditaduras e torturadores e jamais poderemos sonhar em alcançar um desenvolvimento minimante sustentável com um executivo que pratica o machismo, a LGBTIfobia e faz questão de alimentar nas redes sociais a truculência contra qualquer tipo de voz crítica e dissidente. Esse não é mais o Brasil do futuro.

Então é assim que, 100 dias depois de tomar posse, mais e mais pessoas partilham em comum a certeza, baseada em fatos, de que este governo, apesar de legitimamente eleito, comprovadamente nada entregou de positivo. Não é à toa que, desde a redemocratização, Jair Bolsonaro é o presidente em primeiro mandato com o maior nível de rejeição popular no primeiro trimestre.  Para ele não vai adiantar fingir que a Datafolha, responsável pela pesquisa, não existe: são cem dias sem soluções.

Por isso, o resumo deste primeiro capítulo é preocupante. Temos um grupo descoordenado, sem preparo técnico ou tino político (mas com alvos certeiros) que chega ao poder alinhado a um viés ideológico-religioso focado em destruir evidências científicas e fatos históricos, em mudar desastrosamente a geopolítica, sob a batuta de um presidente e seus filhotes que não escondem os esforços em promover uma lavagem cerebral na nação em prol de estados mentais que envergonhariam qualquer símio. Importante, portanto, analisar com cuidado as evidências que nos cercam. Precisamos de novas estratégias e esforços articulados para barrar a óbvia tentativa de consolidar nas novas gerações um modelo intelectual compatível com o representante máximo do povo brasileiro.

Foto: Alan Santos/PR

Alessandra Nilo é co-fundadora e Coordenadora Geral da Gestos –Soropositividade, Comunicação e Gênero, ONG criada em 1993, em Recife (PE). É jornalista, especializada em Saúde, com pós-graduação em Diplomacia e acompanhou ativamente toda a negociação da Agenda 2030.

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