Em tempos de Covid, a tuberculose continua existindo e matando
Márcia Leão, Jair Brandão e Liandro Lindner
Segmento Sociedade Civil
Parceria Brasileira contra a Tuberculose – Stop TB BR
A tragédia sanitária que enfrentamos há um ano, aliada à insensibilidade e à gestão precária do governo brasileiro, tem causado danos imensos à população do nosso país. Em todos os cantos se ouvem os lamentos daqueles e daquelas que perderam seus entes queridos e a preocupação com a realidade, onde o caos se instala a cada dia, na mesma medida em que crescem os índices de mortalidade e novas infecções. Este cenário, no entanto, não pode ter o poder de esconder outras realidades de saúde pública que ainda requerem mais atenção. A tuberculose (TB) continua sendo um problema sério que atinge, principalmente, as populações mais vulneráveis e que deve figurar na lista de prioridades a serem combatidas agora e em um futuro próximo.
Recente levantamento realizado pela sociedade civil mostrou, entre outros pontos, uma forte redução nas equipes técnicas dos serviços de tuberculose, fragilizando o acolhimento pelas unidades, a performance na busca ativa do sintomático respiratório, bem como no diagnóstico, tratamento e acompanhamento visando à cura dos/as usuários/as. Também foi indicado um aumento relevante no número de usuários/as que passaram a receber as medicações para apenas um mês, indicando uma “normalização” dos serviços, quando os indicadores da epidemia de Covid-19, no país, parecem não recomendar essa tendência. Ficou também evidente a existência de falha estrutural na provisão de políticas sociais de apoio às populações mais vulneráveis, e o destaque do protagonismo das ONGs na provisão de suporte a pessoas em tratamento para TB e HIV e Aids.
Neste 24 de março (Dia Mundial de Luta Contra à Tuberculose,) nosso grito é de esperança, mas também de indignação. Acreditamos que a ciência tem feito sua parte mostrando caminhos para controle da tuberculose e indicando, há tempos, a necessidade paralela de proteção social e saneamento. No entanto, a insensibilidade e o desprezo com as políticas públicas, sentidos com destaque nestes últimos dois anos, têm revelado um negacionismo e uma improvisação que não apenas atrasam avanços no controle da TB, como fazem regredir conquistas duramente alcançadas. Importante que o monitoramento dos compromissos assumidos pelo Brasil na Reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre Tuberculose, ocorrida em 2018 durante a Assembleia Geral da ONU, tenha maior efetividade. Assim como melhorar os esforços para o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 – Saúde e bem-estar, para acabar com a tuberculose até 2030.
Atentos e atentas a isto, continuaremos denunciando os descasos, cobrando providências, exibindo os danos que os governos não comprometidos com as populações e com a coisa pública promovem. O papel da sociedade civil também é colaborativo, mas a missão principal é o exercício livre da participação e do controle social, trazendo aos gabinetes distantes e aos/às gestores/as de ocasião, a realidade das populações afetadas, sobretudo as mais vulneráveis e marginalizadas. Somente assim teremos um país menos injusto e uma sociedade mais saudável e equânime.
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